quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Euforia



Euforia

cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração

dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado - o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca

o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina
a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões
quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al-Berto
Horto de Incêndio
Este é dos meus poemas favoritos.
Que me acompanha e a que muitas vezes retorno.
Apeteceu-me partilha-lo.
(A fotografia é do momento referido no post Back in Town. Mas é aqui que ela faz sentido)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Natália Correia

Mãos feridas na porta dum silêncio

"Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês? "


Como dizer o silêncio?

"Se em folhagem de poema
me catais anacolutos
é vossa a fraude. A gema
não desce a sons prostitutos.

O saltério, diletante,
fere a Musa com um jasmim?
Só daí para diante
da busca estará o fim.

Aberta a porta selada,
sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
como dizer o silêncio?

Atirar pérola a porco?
Não me queimo na parábola.
Em mãos que brincam com o fogo
é que eu não ponho a espada.

Dos confins, o peristilo
calo com pontas de fogo,
e desse casto sigilo
versos são só desafogo.

E também para que me lembrem
deixo-os no mercado negro,
que neles glórias se vendem
e eu não sou só desapego.

Raiz de Deus entre os dentes,
aí, pára a transmissão.
Ultra-sons dessas nascentes
só aves entenderão."

Natália Correia
Poesia Completa

Obrigado Natália por teres inspirado todo um país, por teres tocado fundo no coração de tantos, onde se incluem os meus pais.
(as fotografias foram tiradas em Génova, mas poderiam ser em qualquer escada de igreja ou em qualquer restaurante)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Back in Town




Os olhos da Filipa brilham quando diz: «Ainda vais ao casamento».
E o Bruno até retirou o pedido de transferência para perto da "sua" Valença do Minho, natal.

«E se ele tiver de ir

«Já estudei as coisas e a faculdade do Minho tem óptimos professores em Direito Penal»

O olhar que vi ao som desta música, num pequeno recanto dos artistas em Génova, emocionou-me.
Na sua boina e com o bigode cuidadosamente aparado, com o cão como companheiro, ele voou.


Milão surpreendeu-me.
Ironicamente, foi na Praça de Génova que mais me diverti.

Os "aperitivos" são uma ideia genial e urgentemente a ser seguida.

Os Pequenos Fiat 500 que invadem a cidade, são como que um complemento das montras, cheios de estilo.

As dificuldades são muitas vezes imposições dos receios que nos habitam.

O que me perdi nos gelados....
E nas "Moretti"?

Pizza e mais pizza e uma água quente no regresso a casa.

"Tudo é ousado para quem nada se atreve"
Fernando Pessoa.

Adoro Lisboa.

domingo, 9 de agosto de 2009

Postais em viagem



Remadora em S. Fruttuoso



Banhista em S. Margherita de Liguria



Aspettando



Polícias em Génova (pensei que me impedissem de captar o momento)



Pausa

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Zena


Estes italianos são loucos!
A reciclagem não existe e comem em pratos de plástico até na cantina universitária.
Nas passadeiras temos de ter "jogo" de cintura.

Um euro para entrar na WC? porra!

Conversas e encontros. Uma tuna do Porto em digressão Europeia pelo país do copos.

Génova, que não os habitantes, é uma cidade acolhedora.

Só tiram fotocópias se as folhas estiverem separadas e empilhadas, o que é isso de sacar os agrafes? Até parece que trabalham numa reprografia!

Lily Allen recorda-me que este ano não vou ao SW :
Fuck you, fuck you Very, very much Cause we hate What you do And we hate Your whole crew So please Don't stay in touch

Grande destaque numa cerveja artesanal, que ...afinal...está esgotada!
«E agora?» Murphy com ele!...e sigam as estórias...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sonhos



"Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida."

William Shakespeare, in "Hamlet"

Persigo o meu sonho.

E vocês?

domingo, 26 de julho de 2009

sábado, 25 de julho de 2009

Naturalidade


Vivemos hoje numa sociedade que se quer moderna, onde se espera que cada um se comporte de acordo com as "regras" estabelecidas. Atitudes diferentes são, em regra, mal vistas e quem as toma é apelidado de esquisito, parvo, freak, ultrapassado...

Que bom é ver alguém num directo televisivo cheio de "pseudos nada" gritar : "apalpa-me as mamas!". Goste-se ou não, esta senhora disse o que lhe apeteceu, sem se preocupar com o estar a ser vista por muitas pessoas.

E numa época em que as celebradas atitudes diferentes, há muito já entraram no banal, o registo brejeiro, típico de bairro, descontraído, malandro, soa divertido e não deixa de despertar um sorriso.

Vejam o vídeo e se vos apetecer andar nus na rua, lembrem-se que a Lady Godiva já há muito o fez.

sábado, 18 de julho de 2009

Are we human?



Vou até à praia que aprendi a gostar.

Preconceitos antigos levavam-me a não aproveitar, senão como última alternativa, esta linha de areia e água salgada.

Vou sozinho, como muitas vezes acontece.

Por opção? Por falta dela?

Ouço Jay Reatard e Pajaro Sunrise.

Acompanho Murakami na sua busca pelo carneiro selvagem.

"A águia não consegue levantar voo do solo plano;
tem de subir com grande esforço para um penhasco ou para o tronco de uma árvore;
daí, porém, lança-se para as estrelas"
Hugo Von Hofmannsthal

Logo temos killers.

Are we human?

Into the Wild



Este foi um filme que evitei ver durante algum tempo.


A história de um rapaz que, acabada a faculdade, decide viver a sua aventura, encontrar-se, no local mais isolado do mundo - Alasca - não era algo com que me apetecesse confrontar.
Sou um permanente insatisfeito e sei que a minha busca nunca estará terminada.
Logicamente que as semelhanças com a história de Christopher McCandless que doou a totalidade do seu dinheiro à Oxfam International - uma Instituição de Solidariedade Social, tendo queimado os "trocos" são praticamente inexistentes. Mas mesmo assim, afastava-me do filme.

Até que o decidi ver.
E aí começou a odisseia.

Gosto de inventar e daí atribuir um nome a este cocktail: Sweet Dreams
Duas doses de vodka, uma bola, muito generosa de sorvet de limão (infelizmente os com pepitas de limão da Sicília desapareceram do mercado)e umas folhas de hortelã.
Tudo misturado num shaker. Servido com duas pedras de gelo.


Coloquei o filme na playstation, herança de um tempo passado.
Não tenho visto muitos filmes.
E como de costume, vi até cerca de 10 min do final.
Aí o filme parou.

«Porra! e logo na parte que me contaram ser a melhor!»

«Já é tarde. Amanhã vou ao Oeiras Parque!»

Chegado a casa, verifiquei que o leitor de DVD, ultra promoção na Worten, com o mesmo preço que os vi há cerca de quatro meses, não trazia cabos de ligação à televisão.

«Que merda!!!!!!»

- « Pois...não trazem. Nem todos trazem...»

Claro, qual o idiota que pensaria que um leitor de DVD traria os cabos para o ligar ao televisor?

E a frase? Que frase! marca um filme, uma vida : " A felicidade só é real, quando partilhada"

Alguém teve de trilhar o mais sinuoso dos percursos para o perceber.

E nós?

Algum dia o entenderemos?

terça-feira, 14 de julho de 2009

Thank you

"If the sun refused to shine, I would still be loving you.

When mountains crumble to the sea, there will still be you and me.

Kind woman, I give you my all, Kind woman, nothing more.

Little drops of rain whisper of the pain, tears of loves lost in the days gone by.

My love is strong, with you there is no wrong,together we shall go until we die. My, my, my.An inspiration is what you are to me, inspiration, look... see.

And so today, my world it smiles, your hand in mine, we walk the miles,Thanks to you it will be done, for you to me are the only one. Happiness, no more be sad, happiness....I'm glad.

Little drops of rain whisper of the pain, tears of loves lost in the days gone by.My love is strong, with you there is no wrong,together we shall go until we die.

If the sun refused to shine, I would still be loving you.When mountains crumble to the sea, there will still be you and me. "

domingo, 12 de julho de 2009

Lei de Murphy

Na quinta-feira fui ao "Alive" essencialmente para ver os Tv on the Radio, autores do fabuloso Dear Science". Uma banda de pretos, com o homem do saxofone branco. Cheios de energia, provaram que conseguem sobreviver ao pós-estúdio, levando a primeira grande romaria de "festivaleiros" até ao palco Super Bock.
Ali dançava-se. Viam-se sorrisos de satisfação, só não eram rasgados, devido ao péssimo som.
Mereciam mais, merecíamos mais.

Depois de muitas jolas, chegavam os senhores do metal.
Devidamente posicionado para algo de especial, surge a primeira contrariedade.
O ânimo não esmoreceu, no entanto, a visão não era a melhor.
Assisti então a um concerto ao melhor estilo MTV. Limpo, sem falhas, com um óptimo som e onde todos pareciam saber o que se iria seguir. Só o Lars Ulrich destoou, vibrando intensamente.
O próprio e tão fiel público pareceu cansado da banda e creio que o sentimento era recíproco.
Três concertos em três anos, queimam a imagem até dos mais experientes e talvez o melhor exemplo disso mesmo tenha sido o "moche" que mais parecia uma carruagem do "Apita o Comboio" tocado em qualquer arraial de bairro. Como é possível num concerto de Metallica abrir-se uma clareira e os duros posicionarem-se em fila indiana, com os braços nos ombros do parceiro da frente e andarem em rodinha?????????

Lei de Murphy, ou no o caso, da Inês: "Se algo pode correr mal, correrá mal"
Uma frase ouvida durante o concerto: "Eles são velhinhos, mas qualquer um deles dava cabo de ti"! ...seja lá o que o senhor de bigode e vestido de preto queria dizer com aquilo...

sábado, 4 de julho de 2009

-Dá-me-



Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra.

Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz.

Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

Poema mudado para português por Herberto Helder

simplesmente amo este poema que tanto me inquieta

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A propósito de claques...

Pedradas em Alcochete.....
Pastelaria vandalizada em Lagos.....
Estações de serviço destruídas.....

Estes são só alguns dos últimos "feitos" dos pretensos apoiantes dos clubes, que a coberto da legitimidade que lhes é, implicitamente ou não, conferida pelos dirigentes, se sentem imunes a qualquer lei.

É vergonhosa a forma como os clubes tratam este problema. E porque é de um problema que se trata, urge combater, de forma convicta e decisiva, estas manifestações!

Esperava mais dos directores desportivos dos "grandes" da capital, que, em vez de atirarem culpas para o lado dos rivais, deveriam ter surgido juntos em público, a repudiarem o sucedido e com uma solução a contento de ambos.

E depois admiram-se que o público opte por não ir aos estádios.